EMERGE MAGAZINE - Afroempreendedorismo no coração de São Paulo

Você já se indagou sobre quais condições os nossos ancestrais foram deixados após a “Abolição” da Escravatura?

Quando falamos sobre Liberdade, é importante destacar que foi uma suposta abolição. Porque, para que um sujeito seja livre, é preciso oferecer meios para que ele possa viver com dignidade – e não apenas sobreviver. Portanto hoje, o povo preto ainda encontra mazelas com raízes estruturais.

Historicamente, a população negra brasileira viveu à margem do mercado de trabalho formal. Assim, o empreendedorismo é um velho conhecido por questões de necessidade.

De acordo com a pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor, realizada pelo Sebrae em 2017, pessoas negras são donas de 38,8% dos pequenos negócios do país – enquanto brancos representam 32,9% da categoria.

A mesma pesquisa revelou que os empreendedores negros são mais jovens (43% têm até 34 anos, contra 39% entre os brancos).

Embora recebam salários mais baixos que a população branca, o poder de consumo dos negros é enorme. Como consumidores, nós movimentamos R$ 1,7 trilhões por ano.

LOJA REÚNE 50 MARCAS E CERCA DE 1.500 PRODUTOS

Pensando em todas essas informações, algumas indagações perpassam a minha mente:

Quais serviços estamos contratando? Quais empresas estão, realmente, atentas às necessidades do consumidor negro, que está cada vez mais ativo? Por que devo investir em empresas que não me representam em sua publicidade ou que não possuem profissionais negros em todos os níveis de sua estrutura?

Pois bem… para responder a essas questões, a parada de hoje é no coração de São Paulo.

Andando no centro da cidade, próximo à Praça Roosevelt, podemos encontrar uma loja colaborativa exclusiva para afroempreendedores: a Afropolitan Station.

O estabelecimento tem como principal propósito empoderar economicamente empreendedores negros e ser um motor da cultura afro-brasileira. Além do estabelecimento físico, há também uma plataforma de vendas online.

Chegando no local, ouço uma incrível seleção de Soul Music e R&B, que toca nos alto-falantes do estabelecimento. Depois de olhar todos os produtos e ficar em dúvida sobre quais eu levaria, sentei no sofá e me senti em casa ao conversar com Valmir Nascimento, chefe de tecnologia e um dos sócios da Afropolitan.

Idealizada por Hasani Damazio no início de 2018, a Afropolitan Station faz parte do Afro.Estate, um fundo de investimentos voltado a apoiar empresas lideradas por afrodescendentes.

Também faz parte desse ecossistema o Clube da Preta, onde você assina planos mensais e recebe um box com produtos selecionados de acordo com o perfil de cada consumidor. Ainda, existe a Afropolitan Fintech, relacionada a serviços financeiros.

O grupo Afropolitan é muito identificado ao conceito Afropolitanismo, que foi cunhado por Achille Mbembe, filósofo, historiador e politólogo camaronês. Mbembe nos explica:

“O Afropolitanismo é uma estilística, uma estética e certa poética do mundo. É uma maneira de ser que recusa, por princípio, toda forma de identidade vitimizadora… É uma tomada de posição política e cultural em relação à nação, à raça e à questão da diferença em geral”

PARTE DA EQUIPE AFROPOLITAN: PAULA RENATA, LUCIANO DAVID, DONA ELIDA, VALMIR NASCIMENTO E JAQUELINE NAOMY

UM POLO ECONÔMICO E CULTURAL

Levando em consideração a influência que os afrodescendentes têm na cultura brasileira, que possibilita um vasto e criativo portfólio, podemos encontrar nos boxes do espaço físico da Afropolitan 55 marcas, que vendem cerca de 1.500 produtos.

No início, os idealizadores tinham como foco roupas e acessórios. No entanto, eles se surpreenderam com o crescimento orgânico e chegada de outras marcas ao espaço. Hoje, também contam com itens de beleza, estética, gastronomia, literatura e decoração.

O local possui dois andares. No térreo, estão os boxes das marcas, provador e um sofá, onde os clientes podem se acomodar e tomar um delicioso café.

A AFROPOLITAN FAZ PARTE DO AFRO.ESTATE, FUNDO DE INVESTIMENTOS VOLTADO A APOIAR EMPRESAS LIDERADAS POR NEGROS

Na parte de cima, há um estúdio fotográfico e um mini salão de beleza destinado a profissionais do ramo, como Diva Green, a hairstylist de cantoras negras de MPB que já foi tema de reportagem na Emerge (leia aqui).

A Afropolitan não se limita.

Por estarem na zona central da cidade, a Afropolitan consegue atingir um público variado.

Há desde as pessoas que são atraídas pelas redes sociais ou já acompanham o trabalho dos empreendedores até as que ficam curiosas ao passar em frente ao local, incluindo turistas que passeiam pela região.

A ideia é atrair os negros que se sentem representados com a cultura, mas também espalhar essa mesma cultura cheia de singularidade e vivacidade pela cidade.

TRABALHO EM REDE

Inicialmente, Valmir e seus sócios fizeram pesquisas para conhecer o trabalho e selecionar os primeiros empreendedores a ocuparem a Afropolitan.

Com o tempo, os donos das marcas foram indicando outros e, hoje, é possível fazer o cadastro para ingressar na rede por meio do deste link.

Valmir comenta que os empreendedores que fazem parte da plataforma já chegam com praticamente tudo pronto, mas recebem algumas instruções e materiais.

Dentre eles, está o Manual do Empreendedor, que fornece informações sobre o Manifesto Afropolitan, com os valores e o posicionamento, e o passo a passo inicial para empreendedores, com informações completas sobre o ecossistema Afropolitan.

O manual também é um guia para a rotina do ecossistema, como acompanhamento das vendas, atendimento, promoções e serviços financeiros.

LEIA MAIS:Heranças africanas e indígenas na brasilidade de Julia Vidal

Como uma das missões da Afropolitan é conectar, Valmir dá algumas dicas para quem tem interesse em iniciar seu próprio negócio:

“O afroempreendedor que está começando precisa ter dois polos de foco. Primeiro, buscar originalidade para que as pessoas percebam a vida através do produto. Segundo, entender sobre como funciona o negócio, ou seja, buscar informações sobre como se estrutura uma empresa’’

Absorva as dicas. Já pensou seus produtos expostos na Afropolitan junto com outros incríveis empreendedores, incluindo Emicida e Evandro Fióti? SIM! A LAB Fantasma também faz parte do time Afropolitan.

O hub criativo, além de ser uma empresa que vai além do produto e possibilita que o consumidor conheça a história de cada empreendedor, também promove igualdade de gênero e combate o trabalho infantil e escravo.

MOVIMENTO BLACK MONEY DEFENDE QUE O DINHEIRO CIRCULE AO MÁXIMO ENTRE PESSOAS NEGRAS

A Afropolitan também atua como uma grande rede de networking entre os empreendedores, e, sobretudo, um polo de fortalecimento do Black Money.

Termo criado nos Estados Unidos e que tem ganhado impulso no Brasil nos últimos dois anos, Black Money nada mais é do que o dinheiro que circula entre pessoas negras.

Ou seja, o consumo de pessoas negras de produtos e serviços criados também pela população negra.

Fundada em 2017, o Black Movimento Money é uma organização brasileira que visa combater as estruturas de influência e poder que limitam a entrada e a manutenção de pessoas negras no mercado de trabalho.

Criado pela empresária carioca Nina Silva, o movimento estimula o consumo e a prestação de serviços entre a comunidade negra.

O objetivo é que o dinheiro circule apenas entre afrodescendentes pelo máximo de tempo possível. Numa recente entrevista à agência de notícias EFE, Nina comentou:

“Hoje sabemos quais são as marcas que atuam a favor do meio ambiente, mas ainda não sabemos quais são as que atuam a favor da inserção racial nas empresas”

Fortalecer o empreendedorismo negro tem diversos benefícios e vou listar alguns deles para vocês:

  1. Empodera e fortalece a cultura afro e afro-brasileira
  2. Incentiva a profissionalização da comunidade negra
  3. Combate (em partes) a discriminação étnica e social
  4. Dá visibilidade à comunidade negra e mostra seu potencial criativo e econômico
  5. Torna a informação acessível e motiva futuros empreendedores
  6. Desmistifica o papel do negro na sociedade e luta por direitos iguais.

Agora que terminou sua leitura, que tal correr para comprar os produtos disponíveis na Afropolitan?

SERVIÇO
Afropolitan, loja colaborativa de afroempreendedores
O que oferece: roupas, acessórios, itens de beleza, estética, literatura e decoração.
Onde: Rua Rego Freitas, nº 530, República. São Paulo – SP
Horário de atendimento: de terça a sábado, das 12h às 20h. Às segundas, fecha às 18h.  
Saiba mais: www.afropolitan.com.br / @afropolitan.co

Fotos: Ale Ruaro

Leia na integra aqui.