
Em 1966, um violonista de 28 anos e um poeta-diplomata de 52 lançaram pelo selo Forma um LP de oito faixas que mudaria a relação da canção brasileira com as religiões de matriz africana. Os Afro-sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, com o coro do Quarteto em Cy, completam 60 anos em 2026 e seguem entre os discos mais regravados e estudados da música popular do país. A proposta era direta e ousada para a época: levar para a canção de rádio os cantos, os orixás e a atmosfera dos terreiros da Bahia.
Baden e Vinicius já compunham juntos desde o início dos anos 1960, e daquela fase saíram sambas que circularam antes mesmo do disco. O interesse pelo universo afro-baiano veio de duas frentes. Vinicius tinha se encantado com gravações de sambas de roda e cantos de candomblé da Bahia, que ouvia com atenção de estudioso. Baden, por sua vez, contava ter voltado de passagens pela Bahia impressionado com a força dos cantos de candomblé que ouviu por lá.
Da soma desses interesses surgiu a ideia de uma série de canções que não fossem apenas "inspiradas" na cultura afro-brasileira, mas que incorporassem sua estrutura: a repetição hipnótica, o canto responsorial, o violão tratado quase como tambor. As canções foram compostas ao longo de alguns anos, e parte delas já era conhecida quando os dois decidiram reuni-las num álbum.
O LP foi gravado no começo de janeiro de 1966, com produção de Roberto Quartin e Wadi Gebara, responsáveis pelo selo Forma. O resultado soa diferente de quase tudo que a bossa nova vinha fazendo. Em vez de arranjos camerísticos e canto sussurrado, há percussão marcada, coro feminino que responde ao cantor e um violão que alterna ostinatos graves e acordes percussivos.
O Quarteto em Cy teve papel central. As vozes do grupo respondem aos versos de Vinicius como um coro de terreiro, reforçando o caráter ritual. A gravação não tem o polimento dos discos de estúdio da época, e essa crueza contribui para a sensação de urgência e de roda coletiva.
O disco tem oito canções, e a maioria faz referência direta a orixás e entidades:
Juntas, as oito faixas somam pouco mais de meia hora de música, uma duração curta para o impacto que tiveram.
A repercussão imediata foi modesta, mas o disco ganhou status com o tempo. "Canto de Ossanha" virou standard, gravado por intérpretes do Brasil e do exterior, e o conjunto passou a ser visto como um divisor de águas por ter tratado a religiosidade afro-brasileira com respeito e centralidade, num período em que ela ainda sofria forte preconceito.
Compositores das décadas seguintes encontraram no álbum uma autorização para explorar temas de terreiro, ritmos como o ijexá e a sonoridade dos atabaques. Violonistas estudam até hoje as levadas de Baden, que misturam técnica erudita, samba e padrões rítmicos de origem africana. As canções também voltaram em regravações do próprio Baden e de muitos outros intérpretes, o que manteve o repertório circulando entre públicos mais jovens.
Há também leituras críticas, que discutem quem tinha acesso a gravadoras e rádios para falar desse universo religioso negro nos anos 1960. Essa discussão não apaga o valor da obra, mas ajuda a entender o contexto: o álbum abriu portas, e depois dele muitos artistas de terreiro e compositores negros ocuparam esse espaço com suas próprias vozes.
O disco foi gravado no começo de janeiro de 1966 e lançado naquele ano pelo selo Forma. Em 2026, completa 60 anos.
Baden Powell toca violão e também canta, e o coro é do Quarteto em Cy, grupo vocal feminino que responde aos versos em várias faixas.
"Canto de Ossanha" é a mais famosa e a mais regravada. Ela fala do orixá das folhas e se tornou um clássico da música brasileira.
Afropolitan, 2026.