
Uma letra "s" separa dois universos musicais. Afrobeat, no singular, é o gênero que Fela Kuti e o baterista Tony Allen desenvolveram em Lagos entre o fim dos anos 1960 e os anos 1970. Afrobeats, com "s", é o rótulo que se popularizou na década de 2010 para a música pop feita na Nigéria, em Gana e na diáspora africana. Os nomes parecidos confundem até programadores de rádio, mas a diferença entre afrobeat e afrobeats fica clara quando se olha para a origem, os instrumentos e o jeito de construir cada faixa.
O afrobeat nasceu da mistura de highlife, o gênero dançante de Gana e da Nigéria, com jazz, funk e soul americanos e com ritmos iorubás. Fela Kuti, saxofonista e tecladista, voltou de uma temporada nos Estados Unidos no fim dos anos 1960 influenciado pelo movimento negro e pela música de James Brown. Com a banda Africa 70, e depois com a Egypt 80, criou um som longo, hipnótico e combativo.
Algumas marcas do afrobeat clássico:
O afrobeat nunca foi pensado para o formato de três minutos. Ele se desenvolve aos poucos, como numa longa apresentação ao vivo.
O afrobeats é mais um guarda-chuva do que um gênero fechado. O termo passou a circular com força no Reino Unido e na Nigéria no começo da década de 2010 para reunir a produção pop da África Ocidental, que mistura hip-hop, dancehall, R&B, highlife, música eletrônica e, mais recentemente, elementos de amapiano.
Características comuns do afrobeats:
Para quem quer reconhecer os dois de ouvido, vale observar alguns pontos:
Afrobeat. Fela Kuti é a referência principal. Tony Allen, depois de deixar a banda de Fela, seguiu carreira longa e colaborativa. Os filhos de Fela, Femi Kuti e Seun Kuti, mantêm o gênero vivo com bandas próprias. Fora da Nigéria, grupos de vários países, inclusive do Brasil, tocam afrobeat com formação de big band.
Afrobeats. Nomes como Wizkid, Davido, Burna Boy, Tiwa Savage, Tems e Rema levaram a produção nigeriana às paradas internacionais. Burna Boy é um caso curioso de ponte entre os dois mundos, porque cita Fela como influência e costuma usar metais e arranjos mais próximos do afrobeat clássico.
Parte da mistura vem da própria indústria: plataformas de streaming, prêmios e reportagens por vezes usam os termos como sinônimos. Outra parte vem da relação real entre os dois. Muitos artistas de afrobeats cresceram ouvindo Fela e fazem citações a ele em samples, figurinos e entrevistas. Entender a diferença não serve para criar uma hierarquia, mas para ouvir cada gênero com os critérios certos: um pede paciência e escuta longa; o outro, a pista e o refrão na ponta da língua.
Não exatamente. O afrobeats tem influência do afrobeat, mas nasceu de outras fontes também, como hip-hop, dancehall e música eletrônica. São gêneros com lógicas diferentes, e não uma linha reta de evolução.
O gênero é associado a Fela Kuti e ao baterista Tony Allen, que o desenvolveram em Lagos entre o fim dos anos 1960 e os anos 1970, misturando highlife, jazz, funk e ritmos iorubás.
Não. O amapiano surgiu na África do Sul e tem como marca o log drum, um grave percussivo. Ele influencia muitas faixas de afrobeats recentes, mas é um gênero próprio.
Afropolitan, 2026.