
A roda se forma no terreiro de uma casa no interior fluminense, o tambor grave responde ao agudo e um jongueiro lança um verso cifrado que só os mais velhos entendem por inteiro. Cenas como essa, repetidas há gerações, fazem parte do que o Brasil reconhece oficialmente como seu patrimônio. Na semana de 5 de novembro, data em que se celebra o Dia Nacional da Cultura, vale conhecer algumas das expressões que formam o patrimônio imaterial afro-brasileiro e entender o que significa, na prática, esse reconhecimento.
O 5 de novembro foi instituído pela Lei 5.579, de 1970, como Dia da Cultura e da Ciência, em homenagem ao nascimento de Rui Barbosa, em 1849. Com o tempo, a data passou a ser lembrada principalmente como Dia Nacional da Cultura, uma ocasião para discutir políticas culturais, acesso e preservação.
Durante muito tempo, a ideia de patrimônio no Brasil esteve ligada a igrejas, casarões e monumentos, em geral associados à herança europeia. Isso começou a mudar com a criação, em 2000, do Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, que permitiu reconhecer saberes, celebrações, formas de expressão e lugares ligados à vida das comunidades. A partir daí, manifestações de matriz africana passaram a ocupar lugar central na lista.
O samba de roda foi um dos primeiros bens registrados, em 2004, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan. No ano seguinte, recebeu da Unesco o título de Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade.
Praticado em cidades do Recôncavo, como Santo Amaro e Cachoeira, o samba de roda reúne:
Estudiosos o consideram uma das matrizes do samba urbano que se formou no Rio de Janeiro no começo do século 20.
O jongo foi registrado como patrimônio cultural do Brasil em 2005. Trazido por africanos de origem banto escravizados nas fazendas de café e cana do Vale do Paraíba e de outras regiões do Sudeste, ele combina percussão de tambores, dança coletiva e versos enigmáticos, chamados de pontos.
Nos tempos da escravidão, os pontos serviam para comunicar mensagens que os senhores não compreendiam. Hoje, o jongo sobrevive em comunidades do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Minas Gerais e do Espírito Santo, muitas delas quilombolas ou em periferias urbanas. É reconhecido também como um dos antepassados do samba carioca.
Em 2008, o Iphan registrou a roda de capoeira como forma de expressão e o ofício dos mestres de capoeira como saber. Em 2014, a roda de capoeira foi inscrita pela Unesco na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
A roda reúne luta, dança, jogo e música. O berimbau comanda o ritmo, acompanhado de pandeiro, atabaque e agogô, e as cantigas contam histórias, provocam e orientam o jogo. O reconhecimento do ofício dos mestres destaca que a capoeira depende da transmissão oral, de geração em geração, e da autoridade de quem ensina.
O registro não "congela" a tradição nem transforma a manifestação em peça de museu. Ele tem outros efeitos:
A continuidade, porém, depende das próprias comunidades. São os mestres, as rodas, os grupos e as famílias que mantêm o jongo, o samba de roda e a capoeira em movimento, adaptando repertórios e formando novos praticantes.
A lista do patrimônio imaterial inclui outros bens de matriz africana, como o ofício das baianas de acarajé, o tambor de crioula do Maranhão e as matrizes do samba no Rio de Janeiro, que abrangem o partido-alto, o samba de terreiro e o samba-enredo. Juntos, eles mostram como a cultura negra está no centro daquilo que o Brasil considera essencial preservar.
A data foi instituída pela Lei 5.579, de 1970, como Dia da Cultura e da Ciência, em homenagem ao nascimento de Rui Barbosa, em 5 de novembro de 1849.
São práticas, saberes, celebrações e formas de expressão transmitidos entre gerações, como danças, músicas e ofícios, reconhecidos por seu valor para a identidade de um povo.
Sim. A roda de capoeira foi registrada como patrimônio brasileiro pelo Iphan em 2008 e inscrita pela Unesco na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2014.
Afropolitan, 2026.