
Boa parte da base rítmica da música popular brasileira vem de instrumentos de percussão trazidos ou reinventados por povos africanos escravizados e por seus descendentes, como atabaque, agogô, berimbau e cuíca. Esses instrumentos não ficaram restritos a manifestações religiosas ou regionais: migraram para o samba, o maracatu, o afoxé e, mais recentemente, para produções eletrônicas e de fusão.
O atabaque é um tambor de corpo cônico, tradicionalmente feito de madeira e com pele animal esticada no topo, tocado com as mãos. Ele ocupa papel central em terreiros de candomblé, onde diferentes tamanhos de atabaque tocam em conjunto para conduzir cânticos e danças ligadas às entidades cultuadas. Fora do contexto religioso, variações do atabaque aparecem em rodas de samba e em produções que buscam recriar essa sonoridade grave e envolvente.
O berimbau é um instrumento de corda única, feito de uma vara de madeira curvada, um arame esticado e uma cabaça que funciona como caixa de ressonância. Sua origem remonta a instrumentos de arco musical africanos, e no Brasil se consolidou como o instrumento que comanda o ritmo e a intensidade de uma roda de capoeira. Diferentes toques de berimbau indicam ao jogo qual tipo de movimentação é esperada, funcionando quase como uma linguagem musical própria.
Vários instrumentos de percussão de origem africana se tornaram peças fixas do samba e de outros ritmos populares:
Nem todos os instrumentos de percussão africana presentes no Brasil chegaram durante o período colonial. O djembe, tambor de origem da África Ocidental com formato de taça e pele esticada na parte superior, ganhou espaço mais recente em oficinas de percussão, aulas de dança afro e apresentações que buscam uma conexão direta com tradições contemporâneas do continente, em paralelo aos instrumentos que já fazem parte da formação musical brasileira há séculos.
Produtores e músicos contemporâneos vêm incorporando esses instrumentos de formas variadas: gravação acústica de atabaque e agogô processada digitalmente em faixas eletrônicas, uso do berimbau como elemento melódico fora do contexto da capoeira, e oficinas de percussão que ensinam técnicas tradicionais para músicos de outros gêneros interessados em ampliar o vocabulário rítmico. Esse movimento mantém os instrumentos vivos tanto em seu uso tradicional quanto em contextos musicais novos.
Os instrumentos de percussão africana formam a espinha dorsal rítmica de boa parte da música popular brasileira, do candomblé ao samba, passando pela capoeira e por produções contemporâneas. Reconhecer sua origem e sua função original ajuda a entender por que esses sons continuam centrais mesmo décadas depois de sua chegada ao país.
Não é obrigatório, mas boa parte da técnica tradicional se transmite dentro de terreiros e comunidades ligadas ao candomblé, o que costuma ser o caminho mais completo para aprender o instrumento com profundidade.
Na origem, sim, mas hoje também aparece em produções musicais fora da roda, usado por seu timbre característico em composições que buscam esse elemento sonoro específico.
O agogô produz sons metálicos agudos ao ser percutido com uma baqueta, enquanto o reco-reco é raspado e gera um som mais seco e curto; ambos reforçam a textura rítmica, mas com timbres bem diferentes entre si.
Afropolitan, 2026.