
O maracatu é uma manifestação cultural nascida em Pernambuco que une música, dança, religiosidade de matriz africana e cortejo, e tem na percussão sua identidade mais reconhecível: o som grave e coletivo das alfaias, tambores de madeira e couro tocados com baquetas, que dão ao gênero uma pulsação difícil de confundir com qualquer outra do país.
Quando se fala em maracatu, é comum tratar tudo como uma coisa só, mas existem duas vertentes principais com histórias distintas:
As duas compartilham a força da percussão, mas têm instrumentação, coreografia e função social próprias.
A base sonora do maracatu de nação vem de um conjunto de percussão bem definido, em que cada instrumento cumpre um papel:
É a combinação desses timbres, e não um instrumento isolado, que constrói a parede de som típica de uma nação em cortejo.
O maracatu carrega forte herança das culturas africanas trazidas ao Brasil no período da escravidão, tanto na estética do cortejo quanto na ligação com religiões de matriz africana. A coroação simbólica de reis e rainhas remete a tradições de reinos africanos, e muitos grupos mantêm vínculo com terreiros, o que dá à manifestação uma dimensão que vai além do espetáculo e toca a memória e a fé das comunidades que a sustentam.
Diferente de gêneros centrados em um solista, o maracatu é essencialmente coletivo: o baque só existe quando dezenas de tambores tocam em sintonia. Essa lógica de tocar junto, ouvindo o grupo e seguindo o gonguê, faz do maracatu também uma escola de convivência e disciplina rítmica, motivo pelo qual tantos grupos comunitários usam a prática como ferramenta de formação e pertencimento em bairros de todo o país.
O maracatu resiste como uma das expressões mais potentes da cultura afro-brasileira, e sua força está justamente no coletivo dos tambores. Conhecer suas vertentes, sua instrumentação e sua raiz religiosa ajuda a entender por que o baque continua atravessando gerações sem perder intensidade.
O de nação, ou baque virado, está ligado a irmandades e ao cortejo real, típico de áreas urbanas. O de baque solto, ou rural, vem da zona da mata e tem a figura do caboclo de lança, com levada e instrumentação próprias.
É o tambor grave de madeira e couro, tocado com baquetas, responsável pelo peso sonoro do baque. É o instrumento mais associado à identidade do maracatu de nação.
Não. Muitos grupos comunitários acolhem iniciantes e ensinam a levada na prática, já que a força do maracatu está no tocar coletivo, aprendido aos poucos dentro do grupo.
Afropolitan, 2026.