
Durante três semanas de abril de 1966, a capital do Senegal virou ponto de encontro de artistas, músicos, dançarinos, escritores e intelectuais de todo o mundo negro. O Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar entre 1º e 24 de abril daquele ano, reuniu cerca de 2.500 participantes da África e da diáspora e se tornou um marco na história cultural do século 20. Seis décadas depois, o evento ainda serve de referência para discutir como a cultura negra se representa e circula no mundo.
O festival foi idealizado pelo presidente senegalês Léopold Sédar Senghor, poeta e um dos formuladores da Negritude, movimento intelectual que defendia a valorização das culturas africanas diante da herança colonial. O Senegal havia se tornado independente em 1960, e boa parte do continente vivia o mesmo processo naquela década.
Nesse contexto, o festival tinha um objetivo político e cultural claro: mostrar ao mundo que as artes africanas e da diáspora eram contemporâneas, sofisticadas e diversas, e não apenas "folclore" ou peças de museu etnográfico. O evento contou com apoio da Unesco e abriu com um colóquio de oito dias sobre a função e o significado da arte negra na vida dos povos, no qual Senghor apresentou sua defesa da Negritude.
A programação misturou exposições, teatro, dança, cinema, literatura e música. Entre os nomes que marcaram presença estavam o compositor e pianista Duke Ellington, o poeta Langston Hughes, a cantora lírica Marian Anderson, o coreógrafo Alvin Ailey e o ator Sidney Poitier, todos na delegação dos Estados Unidos. Companhias de dança e grupos musicais de dezenas de países africanos dividiram a cena com artistas do Caribe, das Américas e da Europa.
Para muitos participantes da diáspora, a viagem teve peso simbólico: era a primeira vez que pisavam no continente de onde seus antepassados haviam sido arrancados. Para os artistas africanos, era a chance de dialogar com criadores negros de outros continentes que compartilhavam experiências de racismo e de resistência cultural.
O Brasil enviou uma delegação de cerca de 40 integrantes, com músicos, cantores, pintores, escultores, capoeiristas e dançarinos de escola de samba. Dois nomes ficaram especialmente associados ao festival:
A composição da delegação, no entanto, gerou polêmica. O governo militar brasileiro não incluiu Abdias Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro e principal voz do movimento negro da época. Abdias escreveu uma carta aberta denunciando a exclusão e apontando o racismo por trás dela: para ele, o país queria exibir no exterior a imagem de "democracia racial" sem dar espaço a quem questionava essa ideia.
O episódio mostra que o festival não foi apenas uma celebração. Ele também expôs as tensões entre governos, que queriam controlar a representação de seus países, e artistas e militantes, que reivindicavam falar por si mesmos.
O encontro de Dakar abriu caminho para outros grandes eventos. Em 1977, Lagos, na Nigéria, sediou o FESTAC, festival de proporções ainda maiores, com milhares de participantes de mais de 50 países. Em 2010, Dakar recebeu uma nova edição, reunindo artistas contemporâneos da música africana e da diáspora.
Mais do que a sequência de festivais, o legado está nas ideias que ganharam corpo em 1966:
Para o Brasil, o festival ajudou a projetar nomes como Clementina de Jesus e a capoeira angola num palco internacional, ao mesmo tempo em que a carta de Abdias antecipou debates que o movimento negro brasileiro aprofundaria nas décadas seguintes.
O festival foi realizado em Dakar, no Senegal, entre 1º e 24 de abril de 1966, por iniciativa do presidente Léopold Sédar Senghor e com apoio da Unesco.
A delegação teve cerca de 40 integrantes, incluindo Clementina de Jesus, Mestre Pastinha, capoeiristas, artistas plásticos e dançarinos de escola de samba.
Ele não foi incluído na delegação oficial e escreveu uma carta aberta afirmando que a exclusão de artistas negros engajados servia para preservar a imagem de "democracia racial" do país.
Afropolitan, 2026.