
Chiquinha Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 17 de outubro de 1847 e passou a vida levando para o piano dos salões os ritmos que ouvia nas ruas, nas festas e nos quintais da cidade. Não por acaso, a data de seu nascimento foi escolhida pela Lei 12.624, de 9 de maio de 2012, como o Dia Nacional da Música Popular Brasileira. Às vésperas de 17 de outubro, vale fazer o caminho de volta: boa parte do que hoje se chama MPB tem raízes em gêneros criados ou transformados pela população negra ao longo de mais de dois séculos.
No século 18, o lundu era uma dança de umbigada praticada por africanos escravizados e seus descendentes, com palmas, batuque e movimentos considerados "indecentes" pela elite colonial. Com o tempo, ganhou versão cantada e chegou aos salões, acompanhado por viola ou piano.
O lundu-canção levou para a música urbana dois elementos fundamentais: a síncope, que desloca o acento do tempo forte, e o humor malicioso das letras. Esses traços passariam adiante para praticamente todos os gêneros populares que vieram depois.
Na segunda metade do século 19, no Rio de Janeiro, músicos populares começaram a tocar polcas, tangos e habaneras com o balanço herdado do lundu e do batuque. Dessa mistura nasceram duas vertentes:
Chiquinha Gonzaga transitou pelos dois mundos. Seu tango "Gaúcho", mais conhecido como "Corta-Jaca", é um maxixe que causou escândalo ao ser tocado numa recepção oficial no Palácio do Catete, em 1914. Anos antes, em 1899, ela havia composto "Ó Abre Alas", considerada a primeira marcha de Carnaval.
No começo do século 20, famílias vindas da Bahia se instalaram na região central do Rio, perto do porto. Na casa de mulheres como Tia Ciata, a festa misturava religiosidade de matriz africana, samba de roda, partido-alto e choro. Foi desse ambiente que saiu "Pelo Telefone", registrado por Donga em 1916 e considerado marco inicial do samba gravado.
O samba herdou a polirritmia da batucada, a chamada e resposta do partido-alto e a síncope do lundu. Nas décadas seguintes, com as escolas de samba e o rádio, tornou-se o gênero-símbolo do país e a principal ponte entre a música negra dos morros e a indústria fonográfica.
Em Salvador, a matriz africana chegou à música popular por outro caminho: os afoxés, cortejos carnavalescos ligados ao candomblé, que tocam o ijexá, ritmo de origem iorubá marcado por agogôs e atabaques. A partir dos anos 1970, compositores baianos levaram o ijexá para as rádios, e os blocos afro, como o Ilê Aiyê e o Olodum, deram origem a uma sonoridade que influenciou a axé music e a MPB.
A lista é longa e vai muito além do eixo Rio–Bahia:
Quando a sigla MPB se consolidou, nos anos 1960, esses gêneros já estavam presentes nas canções de compositores de todo o país, às vezes de forma explícita, às vezes apenas no jeito de dividir a frase ou de tocar o violão.
Celebrar a música popular brasileira sem reconhecer suas raízes africanas é contar a história pela metade. Muitos dos criadores desses gêneros foram perseguidos, tiveram suas festas reprimidas pela polícia e raramente receberam crédito ou dinheiro pelo que inventaram. Ouvir o lundu, o jongo ou o ijexá é também uma forma de reparar essa lacuna e de entender de onde vêm ritmos que tocam todos os dias no rádio e no celular.
A data homenageia o nascimento de Chiquinha Gonzaga, em 17 de outubro de 1847. Ela foi instituída pela Lei 12.624, de 9 de maio de 2012.
É um gênero de origem afro-brasileira, primeiro dança de umbigada e depois canção, que fez sucesso nos séculos 18 e 19. Ele trouxe a síncope e o humor para a música urbana do país.
O samba urbano carioca se formou no Rio, mas com forte contribuição de famílias baianas e do samba de roda do Recôncavo. Por isso, as duas regiões fazem parte da sua origem.
Afropolitan, 2026.